O começo do fim do patriarcado

Por Leonardo Boff*

Rio de Janeiro, Brasil, setembro/2010 – É uma feliz singularidade da campanha eleitoral presidencial do Brasil para o dia 3 de outubro a presença de duas candidatas, Marina Silva e Dilma Rousseff, esta última com folgada maioria segundo as pesquisas. Se trataria de uma novidade absoluta, já que nunca na história brasileira uma mulher chegou à Presidência.

 

No começo do milênio, em 2001, o Fundo das Nações Unidas para a População escreveu em seu Informe Anual: “a raça humana está saqueando a Terra de forma insustentável. Dar às mulheres maior poder de decisão sobre o futuro pode salvar o planeta da destruição”.

Qual a importância desta afirmação? Que a terra e a humanidade entraram em uma zona de alta periculosidade. O aumento da pobreza que implica injustiça em nível planetário, o aquecimento global irreversível do sistema Terra, a comprovação de que o atual regime é insustentável, pois os seres humanos consomem anualmente 30% mais do que a Terra pode repor; tudo isto nos impõe decisões exigentes se queremos continuar sobre este pequeno e velho planeta.

Todas as questões estão ligadas à vida. Quem melhor do que as mulheres para cuidar da vida e criar as condições para perpetuá-la?

E os homens? Estão se mostrando confusos e impotentes e, segundo o destacado psicanalista alemão Richter, se fizeram vítimas do “complexo de deuses”. Atribuíram-se tarefas divinas: dominar a natureza, organizar toda a vida, conquistar os espaços exteriores e remodelar a humanidade. Objetivos desmedidos. A excessiva arrogância, que os gregos chamavam de hybris e castigavam com a morte, os derrotou.

O novo equilíbrio deve agora passar pelas mulheres. O feminismo mundial contribuiu com uma crítica fundamental ao patriarcado que prevaleceu desde o neolítico, há pelo menos sete mil anos. O patriarcado originou instituições que ainda hoje moldam as sociedades humanas como a razão instrumental-analítica que separa a natureza e o ser humano, que o levou a dominar os processos da natureza de forma devastadora, criou uma burocracia de Estado organizada em função dos interesses masculinos, projetou um estilo de educação que reproduz o poder patriarcal, criou os exércitos e provocou as guerras. E afetou outras instâncias como as religiões e as igrejas, cujos deuses e atores são quase todos masculinos.

O “destino manifesto” do patriarcado é a denominação do mundo com a pretensão de nos fazermos “mestres e donos da natureza” (Descartes).

Os encontros internacionais – como os do G20 – demonstram que os governos estão mais interessados em seus negócios do que em salvar a vida e proteger o planeta.

Ressalte-se aqui a necessidade urgente da atuação salvadora da mulher.

As duas candidatas brasileiras são diferentes, com estilos próprios, mas ambas com indiscutível densidade ética e uma visão da política a serviço do bem comum, e não como técnica de conquista e uso do poder em beneficio da própria vaidade ou dos interesses elitistas que ainda predominam na democracia brasileira.

Dilma Rousseff, de ascendência búlgara, economista, foi Chefe da Casa Civil do governo atual, que é o cargo mais importante da burocracia presidencial, já que conduz as ações políticas, e diretora do maior programa nacional: o Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC), que representa mais de US$ 500 bilhões em investimentos em infraestrutura e industrialização. É uma excelente executiva, embora com moderada sensibilidade ecológica. Representa o Partido dos Trabalhadores do presidente Lula e já conta com mais de 50% das intenções de voto, projetando-se como presidente no primeiro turno.

Marina Silva tem as mesmas origens populares de Lula (ex-operário metalúrgico), já que nasceu no coração da selva amazônica de família muito pobre e trabalhou como operária da borracha. Alfabetizou-se aos 16 anos e ajudou a criar as comunidades eclesiásticas de base com acentuado senso de libertação no Acre. Foi eleita senadora e por cinco anos foi ministra do Meio Ambiente do atual governo. Representa a causa ecológica com notável energia, competência e carisma. Seu Partido Verde tem pouca representatividade popular e, portanto, sua mensagem não consegue a ressonância que mereceria. Mas conseguiu colocar na agenda de todos os partidos e na consciência nacional a urgência da questão ecológica.

Tem um significado profundo, e creio que providencial, duas mulheres, Dilma Rousseff e Marina Silva, serem candidatas à Presidência do Brasil. Elas encarnam um chamado da Mãe Terra para que seja preservada, e respondem a uma urgência deste momento histórico: mais do que salvar o sistema econômico-financeiro em crise, importa salvar a vida humana e proteger a vitalidade do planeta. A economia deve servir para este objetivo superior. Envolverde/IPS

* Leonardo Boff é escritor e teólogo brasileiro, autor, junto com Rose Marie Muraro, de Feminino e Masculino. Uma nova consciência para o encontro das diferenças.

Fonte: IPS/Envolverde

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