Candidatas exigem mais do que cota

Editorial do jornal Correio Braziliense em 15/8/2010

A participação da mulher como protagonista da política lembra velha história africana. Trata-se de “A galinha e a águia”. Uma águia, mal aprendeu a voar, caiu num galinheiro. Lá ficou. Comia milho, ciscava, dormia no poleiro. Imaginava que o tamanho desproporcional do corpo e o nariz adunco fossem distúrbios hormonais. Um dia, um caçador a encontrou no habitat estranho.

 

Perguntou-lhe o que fazia ali. “Sou galinha”, respondeu ela. “Não”, retrucou ele. Você é águia.” Ante a resistência, o homem a levou para o alto da montanha e a jogou sem pena dos cacarejos ensurdecedores. No começo, ela sentiu medo. Depois reconheceu a brisa, a liberdade e o prazer de pairar no ar. “Eu não sou galinha”, concluiu ela. “Meu nome é águia.”

A analogia vale para a inapetência feminina de disputar cargo eletivo. Antes da instituição das cotas, acusavam-se os partidos políticos pela quase ausência de candidatas entre os nomes oferecidos ao eleitor. A obrigatoriedade de apresentar 30% de postulantes de gênero diferente na chapa das legendas seria a forma de contornar o problema. A receita deu certo em outros países, mas não respondeu às expectativas brasileiras.

Levantamento do Correio Braziliense mostrou que em nove das 27 unidades da Federação nenhum partido ou coligação conseguiu atingir o percentual. Em outras, só alguns lograram. No total de coligações registradas, apenas 22% cumpriram a lei. Resultado: o país acumula deficit de 537 candidatas — número maior que o de cadeiras na Câmara dos Deputados. Para atender a norma, partidos recorrem a amigas ou parentes. Elas entram no páreo não para ganhar, mas para figurar na lista.

O dado surpreende sobretudo quando se sabe que as mulheres constituem quase 52% do eleitorado. São nada menos de 70,3 milhões de votos no território nacional — cifra capaz de eleger percentual significativo de representantes para o Legislativo e o Executivo. Existem muitas explicações para o fenômeno. Uma delas é cultural. Só em 1934 as brasileiras conquistaram o direito pleno de votar. Do papel à prática, há longo caminho a percorrer. Outra razão são as prioridades. Família, carreira, ascensão profissional vêm antes da corrida por mandato.

São argumentos justos, sem dúvida. Mas não se pode ignorar a dificuldade de eleger-se — para ambos os sexos. Para a mulher as pedras são mais pesadas. Figurar na chapa é passo importante, mas não suficiente. Há necessidade de apoio financeiro e logístico. Veja-se o exemplo de Dilma Rousseff. Tida como poste há alguns meses, a ex-ministra está na dianteira da corrida presidencial. Ela tem mérito, sem dúvida. Mas vale a questão: sem o empenho do padrinho Lula e o suporte do PT, Dilma teria chegado aonde chegou?

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