O voto das mulheres

Fernando Rodrigues – UOL (Folha de S.Paulo)

BRASÍLIA – O voto feminino apresenta até o momento um comportamento curioso na eleição presidencial deste ano. As duas mulheres candidatas para valer na disputa, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV), ainda não conseguiram usar o fator gênero para alavancar suas campanhas.

 

O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do IBGE, fez uma análise de seis pesquisas de intenção de voto deste ano -duas delas do Datafolha. Em todos os levantamentos, José Serra (PSDB) leva vantagem sobre a petista Dilma Rousseff no eleitorado feminino. 

Serra e Dilma praticamente empatam quando se isola apenas o voto dos homens. Ou seja, a dianteira que o tucano continua a manter deriva da preferência maior que recebe das eleitoras mulheres. 

José Eustáquio diz não saber a gênese da dificuldade de Dilma com o eleitorado feminino. Uma pista pode ser o histórico de votação de Lula: “O atual presidente do Brasil sempre teve menos votos entre as mulheres em todas as cinco eleições presidenciais que disputou”.

Se tivesse conseguido a mesma proporção de apoio entre homens e mulheres, diz o especialista, Lula teria vencido no primeiro turno as eleições de 2002 e de 2006.


Há também a hipótese do machismo disfarçado, latente na sociedade brasileira -mais conservadora do que se imagina. Eustáquio diz que, conforme estuda o tema, mais dúvidas tem: “Será que o eleitorado feminino está menos propenso a votar em Dilma por um machismo do estilo “mulher não vota em mulher”? Ou, ao contrário, o eleitorado feminino resiste a Dilma por projetar na candidata um machismo que talvez atribua a Lula, como em outras eleições?”.


Decifrar esse enigma sobre o comportamento do voto feminino será vital para quem quiser ganhar a eleição. O PT, Dilma e Lula ainda parecem longe de uma resposta.

A reversão das expectativas de gênero nas eleições 2010:

Dilma na frente entre os homens e Serra na frente entre as mulheres

por José Eustáquio Diniz Alves

As seis pesquisas nacionais de intenção de voto para a corrida à Presidência da República, em 2010, mostram uma clara diferenciação nas preferências de voto entre os eleitores do sexo masculino e feminino, particularmente no que diz respeito às duas candidaturas que aparecem nos primeiros lugares das preferenciais atuais do eleitorado.

O gráfico 1 mostra que tanto José Serra, quanto Dilma Roussef possuem cerca de 34% do eleitorado entre os homens, sendo que em duas das três últimas pesquisas, Dilma está  à frente de Serra entre os homens. Entre o eleitorado feminino José Serra apresenta cerca de 35%, em média, das intenções de voto. Ou seja, o ex-governador de São Paulo possui um melhor desempenho entre as mulheres. Já a candidata Dilma, surpreendentemente (ou não?), possui um péssimo desempenho entre o eleitorado feminino, onde aparece com cerca de 25% das intenções de voto. 

Gráfico 1: Intenção de voto nas candidaturas de José Serra e Dilma Rousseff entre o eleitorado masculino e feminino em seis pesquisas nacionais, Brasil: janeiro a março de 2010:

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gráfico 2 mostra que houve uma ligeira tendência de alta nas intenções de voto do eleitorado feminino tanto para Serra, quanto para Dilma, nas diversas pesquisas realizadas de janeiro a março de 2010. Isto decorre de uma maior definição do voto na medida em que os candidatos iniciam uma campanha de fato. Mas o gráfico também mostra que as duas retas de tendência estão praticamente paralelas, o que indica que José Serra mantém uma diferença constante a seu favor no eleitorado feminino.

 

Gráfico 2: Intenção de voto nas candidaturas de José Serra e Dilma Rousseff entre o eleitorado feminino em seis pesquisas nacionais, Brasil: janeiro a março de 2010

 

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O gráfico 3 mostra que houve uma  reversão das intenções de votos no eleitorado masculino. Dilma que aparecia atrás nas intenções de voto do eleitorado masculino no início do ano, superou Serra na média das últimas pesquisas. O gráfico mostra uma estabilidade de Serra e uma subida de Dilma entre os homens aptos a votar. Portanto, tem existido um comportamento diferenciado nas intenções de voto do eleitorado, segundo o sexo dos entrevistados.

 

Gráfico 3: Intenção de voto nas candidaturas de José Serra e Dilma Rousseff entre o eleitorado masculino em seis pesquisas nacionais, Brasil: janeiro a março de 2010

 

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Em toda a história do país, Dilma Rousseff é a mulher que aparece mais bem colocada em uma disputa eleitoral para a Presidência da República. Pelo apoio que tem do Presidente Lula e pela coligação que apóia a sua candidatura, ela tem grande chance de chegar ao Palácio do Planalto. Portanto, ela tem chances reais de se tornar a primeira mulher Presidenta do Brasil. Por que então o eleitorado feminino não mostra a mesma disposição em votar nela do que o eleitorado masculino? Ou seja, por que Dilma está obtendo maior apoio entre os homens?

Parte da resposta pode ser encontrada no próprio histórico de votação da candidatura Lula, pois o atual presidente do Brasil sempre teve menos votos entre as mulheres em todas as cinco eleições presidenciais que disputou. Se o candidato Lula tivesse tido a mesma votação entre as mulheres do que obteve entre os homens, ele teria ganhado no primeiro turno, tanto em 2002, quanto em 2006. De certa forma, foram as mulheres que jogaram a decisão para o segundo turno, nas duas últimas eleições presidenciais.

Foge ao escopo deste artigo explicar porque o candidato Lula sempre teve um percentual de votos menor entre as mulheres, comparado com o apoio que sempre teve entre os homens. O fato é que, esperava-se uma diferença menor no caso da candidatura Dilma, pois sendo mulher, ela poderia haver uma maior identidade de gênero com o eleitorado feminino. Mas isto não aconteceu,
pelo menos por enquanto. Cabe ressaltar que a candidata Marina possui aproximadamente o mesmo percentual de intenções de voto entre o eleitorado de ambos os sexos, inclusive com ligeira vantagem entre as mulheres.

A outra parte da explicação, do fenômeno de menor intenção de voto feminino na candidata Dilma, decorre das maiores taxas de indefinição do voto das mulheres. Uma explicação que ainda carece de melhor comprovação é que as mulheres são mais exigentes na escolha do voto (assim como são consumidoras mais exigentes). Nesta perspectiva, as mulheres teriam maiores taxas de indefinição porque gostariam de conhecer melhor as candidaturas à presidência. Desta forma, a menor percentagem de votos em Dilma Rousseff seria parte de um comportamento de precaução na escolha do voto, por parte das mulheres, em decorrência da candidata ser novata na política e pouco conhecida do público feminino.

Evidentemente, outras explicações são possíveis e só o desenrolar do processo eleitoral poderá lançar luz sobre as diferenças de gênero na escolha e definição de voto para ambos os sexos. Pesquisa realizada pelo Ibope e pelo Instituto Patricia Galvão, em 2009, mostrou que a grande maioria da população vê de maneira positiva a participação feminina na política. Mas uma intenção genérica vai se transformar em votos de fato?

Será muito interessante acompanhar como o eleitorado vai definir o seu voto, neste momento em que existem duas candidatas mulheres na disputa à Presidência, de 2010. Particularmente será interessante observar o fato, posto até o instante, de que uma proporção maior de homens manifesta intenção em votar em uma mulher e uma proporção maior de mulheres com intenção de votar em homem. Qual o significado destas tendências?

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