Os sonhos roubados das meninas da esquina

MARTHA MENDONÇA- Revista Época

Daiane foi abandonada pelos pais, mora com os tios e de sua rotina fazem parte abusos sexuais domésticos. Jéssica, que cuida do avô doente, perde a guarda da filha. Sabrina se apaixona por um traficante. Quando precisam de dinheiro, se prostituem. As três são adolescentes de uma comunidade carente do Rio de Janeiro, mas enfrentam problemas de gente grande. Pobreza, falta de perspectiva e de educação, solidão. Elas são protagonistas do novo filme de Sandra Werneck, Sonhos Roubados, que estreia este mês. (Na foto do longa-metragem, as atrizes Amanda Diniz, Kika Farias e Nanda Costa)

 

fotosonhos

 

A inspiração para Sonhos Roubados é o livro da jornalista Eliane Trindade, Meninas da Esquina, lançado em 2005, que agora ganha nova edição pela Record. Na obra, seis diários de adolescentes que Eliane conhece quando preparava uma matéria sobre prostituição infantil. Mais do que estatísticas sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes, Meninas da Esquina dá voz direta para essas jovens de várias cidades brasileiras, através de diários que elas escreveram ao longo de dois anos, convidadas pela autora. Por este período, quase diariamente, elas escreveram ou gravaram o que viviam, o que sentiam e o que sonhavam.

Veja alguns trechos dos relatos:

“Quem me levou para essa vida foi a irmã mais velha de uma colega minha da favela. Ela me levou pra casa dela, apontou para o pai, que tinha uns 40 anos, e disse: se você colocar a boca no pinto dele, você ganha um pacote de macarrão e R$ 10″

“Comecei a conseguir bastante dinheiro fazendo programa dentro e fora da favela. Podia comprar todos os brinquedos que queria. Com a grana da prostituição, comprei minha primeira Barbie…Lá em casa tinha guitarrinha, pianinho, coisa bacana que eu me dava de presente”

“Pego um bocado de camisinha no posto de saúde ou na ONG. Nem sempre eu vendo, a maioria eu dou. Transo muito sem camisinha. Quando fico nervosa, eu não uso. Com cliente, fico muito estressada, nem sempre lembro de pedir pra eles usarem. Quando peo, a maioria diz que não quer, e eu deixo pra lá.”

“A gente curtia também com o Xerife, que é um delegado importante. Eu enrolava ele, dizia que não podia fazer tudo porque estava menstruada e ganhava ins R$ 50. Só transamos uma vez e aí eu ganhei o dobro”.

“O problema é que agora os caras são todos safados, só querem pagar mixaria. Então a gente não faz. Muitas vezes, passamos a noite inteira andando e nada. Os caras só querem dar dinheiro pouco: R$ 10, R$ 20. Começo a xingar, mando eles limpar aquele lugar com esse dinheiro”.

“Quando conheci o Gerson, eu devia ter uns 8 anos e ainda era virgem. Ficava com ele, roçava e tal, mas no começo a gente não fazia tudo. Ele tem 61 anos, a mesma idade do meu avô.”

Eliane Trindade deu uma entrevista ao Mulher 7×7:

O começo de tudo: por que as meninas da esquina? como surgiu a ideia do livro?

A ideia do livro surgiu como uma pauta para uma revista feminina. Inicialmente, imaginei acompanhar a rotina de uma menina prostituída, por meio de diário, um jeito lúdico e aprofundado de mostrar a dura realidade da exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. A logística e o tempo envolvidos fizeram com que a ideia evoluísse para um livro. Assim, consegui aproveitar melhor o resultado desse esforço de dois anos de trabalho -entre a feitura dos diários pelas meninas, as entrevistas periódicas com elas para complementar informações e a edição do material- em um formato apropriado.

fotoelianetrindadeO que todas elas têm em comum?

São garotas que encontraram no mercado do sexo um meio de sobrevivência. Vivem nas periferias ou em favelas de grandes cidades do Norte, Nordeste e Sudeste. Por uma questão de proteção e para preservar a identidade delas ao máximo, uma vez que narram crimes e estão muito vulneráveis, os locais não são citados.

Durante o trabalho, você conseguiu se desprender completamente de todo e qualquer preconceito em relação à prostituição?

A feitura do livro foi um aprendizado profissional e pessoal imenso. O contato continuado e tão próximo com as “meninas da esquina” me fez entender que elas não eram “prostitutas”, mas garotas que se prostituíam por várias razões, mas nunca se definiam como tal. Elas eram “autônomas” e esse sentido de liberdade, verdadeiro ou não, foi uma revelação para mim. O resultado é que nos seis diários, em nenhum momento, elas aparecem sob um prisma piedoso ou moralista. Elas não são “coitadinhas”, mesmo sujeitas a todo o tipo de violência. Sofrem, sim, mas vivem suas alegrias e insistem em sonhar.

De que forma vc acredita que este livro mudou a vida dessas meninas? E a sua vida?

Desde o começo, tanto eu quanto as meninas não encaramos o projeto do livro como algo redentor, que pudesse tirá-las da “prostituição”, por exemplo. O livro foi e é importante na vida delas como instrumento de reflexão. Os diários tinham um papel de “confidentes”. Foi muito duro ver garotas tão especiais e com tantas possibilidades condenadas a uma vida de sacrifícios e a uma realidade cercada de violência e miséria. Os direitos autorais do livro foram integralmente doados a elas, mas para modificar o destino delas é preciso bem mais do que isso. Elas, assim como todas os jovens, precisam ter garantido seus direitos básicos para que possam ter um futuro digno: uma família que lhes sirva de esteio, educação, moradia, trabalho. A receita é básica.

O quanto foi importante este trabalho ter sido feito por uma mulher?

O fato de eu ser mulher foi muito importante para criar cumplicidade entre nós. Eu me propus a colocar seis diários na rua, imaginando que algumas delas pudessem desistir. Para minha surpresa e também dos “anjos da guarda” do projeto nos Estados (agentes da ONGs que mantinham contato com as meninas para fazer cópias dos diários e mandar as fitas gravadas por elas), nenhuma delas desistiu. Elas não só se envolveram com a proposta do livro, como o fizeram com afinco e se sentindo valorizadas. Provaram que quando se sentem ouvidas, elas criam vínculos com pessoas e instituições, uma lição para todos aqueles que estão seriamente comprometidos em mudar essa realidade.

Hoje, passados cinco anos do livro lançado, debates, retornos – e agora o relançamento na esteira do filme -, alguma coisa mudou na sua visão do problema?

O combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil entrou definitivamente na pauta. Foi objeto de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito no Congresso Nacional e de estudos importantes por parte do governo e de organizações da sociedade civil. O diagnóstico do problema existe e as políticas públicas necessárias para tirar as meninas da esquina também são conhecidas. O que falta é olhar para os filhos dos pobres como se olha para os filhos dos ricos: eles precisam exatamente das mesmas coisas para conquistarem independência e terem uma vida digna. Meu desejo é que o livro ajude a ver o quão próximas as meninas da esquina estão de todos nós. É quando elas deixam de ser um número a mais nas estatísticas e viram gente. O fato de o livro ter virado filme é mais um elemento para aproximar, sem preconceitos, os brasileiros dessa realidade. Em “Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck, as meninas da esquina viraram personagem de ficção. No entanto, o que elas representam na telona é real.

Veja o trailer do filme aqui.

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