Crise econômica: Entrevista com Leda Paulani

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Leda Paulani é professora da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo e trabalha nas áreas de Metodologia da Economia, História do Pensamento Econômico, Economia Política, Economia Brasileira, Contabilidade Social e Economia da Saúde. Especialista em Marx. É presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política e líder do grupo de pesquisa "Instituições do Capitalismo Financeiro – CAFIN"


"Um regime de acumulação movido pelas crises"

 

Página 50: A crise financeira recente chegou a ser comparada por muitos à crise de 1929. Um ano depois, especialistas, governos e mídia dizem que tudo está se normalizando. As avaliações eram muito alarmistas? A crise passou?

Leda Paulani: São contextos diferentes, mas fundamentalmente o que aconteceu é que em função do aprendizado da "crise de 29", dessa vez os Estados agiram rapidamente, injetando liquidez nas economias, e isso conteve os efeitos deletérios da crise. Num certo sentido, a crise pode ser menos intensa justamente porque os Estados sabem pilotar os remédios para evitar as conseqüências mais catastróficas e pontuais. Mas em outro, ela é mais importante, pois é mais profunda. O capitalismo hoje está envolvido numa armadilha que é o processo de acumulação de capital sendo comandado pela valorização financeira e por intermédio daquilo que o Marx chamou de capital fictício. Esse remédio que aparentemente amaina os efeitos da crise joga para frente os mesmos problemas. Eu costumo dizer que a gente saiu ou está saindo da crise pela mesma porta que entramos. Essa forma de resolver a crise já está recriando novamente as mesmas armadilhas.

Página 50: Em sua opinião, essa crise financeira é uma conseqüência da crise do capitalismo?

Leda Paulani: É uma crise estrutural. Existe uma escola teórica de orientação marxista que desdobra o conceito de modo de produção do Marx em dois outros conceitos: modo de regulação e regime de acumulação. Eles dizem que o capitalismo vive hoje um regime de acumulação com dominância da acumulação financeira. Esse regime de acumulação vive desse jeito, de crise em crise. Desde o começo dos anos 80, não passamos mais do que quatro ou cinco anos sem uma grande crise financeira. De 1994 para cá, tivemos a crise mexicana; depois a crise asiática em 1997; depois a russa, brasileira e que desdobrou na crise argentina um pouco depois. Aí, veio a crise das empresas.com, da bolsa de 2000/2001, a hipervalorização das bolsas americanas por conta da febre com as empresas de internet. E, finalmente, agora a gente tem essa crise. Nesse regime, as crises não são um fator excepcional, como alguém que é plenamente são e fica doente. Ele é estruturalmente doente. E essa crise, pela profundidade que teve, mostra que as contradições com esse regime de acumulação estão se aprofundando.

Página 50: Então você não acredita que possamos estar diante de um novo ciclo na condução da economia em nível mundial, como na questão da regulação, por exemplo?

Leda Paulani: Já me perguntaram várias vezes se não estariam sendo criadas as mesmas condições do pós-Segunda Guerra para a criação de um sistema tipo Bretton Woods, mais regulado, com intervenção do Estado e controle do fluxo de capitais. Eu acho que de modo algum essas condições existem. Primeiro que, naquele momento, o mundo vinha de um período muito conturbado, muito instável na economia, com colapso do padrão ouro, e hoje a gente não tem isso. A gente tem um regime que é movido pelas crises. Não temos aquele ambiente que obrigou os grandes líderes mundiais a sentar e ver o que fazer. E naquele momento você tinha uma suposta ameaça ao sistema capitalista por parte de outro suposto modo de produção no mundo soviético.

A outra coisa diferente é que, depois de 30 anos de vigência desse regime de acumulação, você tem uma riqueza financeira muito grande. Isso é a base para a manifestação de interesses materiais específicos e determinados, que não querem ver a sua possibilidade de valorização controlada, com intervenção do Estado. E tem um terceiro fator que é o abraço de afogados que une as duas grandes economias, Estados Unidos e China. Se os Estados Unidos afundam, a China vai junto. Então, existe um fator de inércia a manter essa situação no sistema monetário internacional. Para resolver as enormes contradições dentro do sistema, essas inércias precisariam ser vencidas.

Página 50: Apesar dos Estados terem agido rapidamente para amenizar os efeitos da crise, alguém pagou essa conta

Leda Paulani: Certamente os trabalhadores pagaram uma parte importante da conta, porque o desemprego aumentou no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Nos Estados Unidos, há um desemprego altíssimo para a economia americana, de cerca de 10%. E a retomada disso é lenta. Até no Brasil, que está sendo considerado o país que mais rapidamente saiu da crise, o nível de emprego não se recuperou. Pelos últimos dados de desemprego, a gente percebe que ele caiu, mas ainda não está no nível de antes da crise em 2008. Outros que pagaram: todos aqueles que, de alguma maneira, sofreram desvalorização nos seus ativos, particularmente os fundos de pensão, muitos deles europeus, que compraram aqueles papéis americanos tóxicos, como se diz. Em parte, uma ou outra cabeça do sistema financeiro rolou. Mas como classe, os trabalhadores foram os que mais perderam, porque perderam seus empregos.

Página 50: E o caso do Brasil? Quais foram as condições que amenizaram os impactos da crise, pelo menos aparentemente?

Leda Paulani: Foi uma combinação de elementos. Primeiro, o governo brasileiro já estava num movimento de retomada dos investimentos. O governo Lula decidiu que, em sua segunda gestão, iria se preocupar mais com o crescimento e menos com a inflação. Então, quando a crise veio não pegou uma economia deprimida. Fora isso, o Brasil tem um sistema financeiro e bancário diferente dos Estados Unidos, dos países europeus e mesmo do Japão, o que fez com que ele não fosse muito contaminado por essa crise. No início a crise bateu aqui principalmente porque o crédito congelou. E também bateu no setor privado, em empresas que, dominadas por essa lógica financeira, estavam fazendo jogatinas no mercado financeiro. O governo soltou o compulsório dos bancos, mas os bancos não emprestaram, recolheram tudo no Banco Central em títulos. Aí o governo se deu conta de que tinha que usar as suas instituições estatais, como o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Isso também fez uma diferença, porque o Brasil conseguiu salvar da ira da privatização essas instituições, que são instrumentos que o governo tem a mais nas mãos para lidar com situações como essa. Macroeconomicamente, tem outro fator importante, que é o fato do Brasil ter uma grande quantidade de reservas.

Página 50: Mas isso não garante uma situação tranqüila no longo prazo

Leda Paulani: O Brasil, pelas características que o sistema financeiro tem, não será protagonista de uma crise. Mas ele pode ser abalado por crises que vêm de fora. Se a nossa forma de crescimento é sustentável ou não já é outra discussão. Do ponto de vista capitalista, o que torna sustentável o crescimento de qualquer economia é um crescimento forte do investimento. Isso não está acontecendo no Brasil. Quer dizer: a retomada está se dando muito mais pelo consumo. O Brasil tem um mercado interno grande, houve uma pequena distribuição de renda por conta do aumento do salário mínimo. Só que nenhum crescimento puxado pelo consumo é sustentável. É como um cachorro mordendo o rabo. Os trabalhadores precisam consumir para gerar renda e precisam de renda para consumir. Tem que ter um fator de fora, e esse fator é o investimento. E quando você tem o consumo puxado pelo crédito, é pior ainda. Porque lá na frente a pessoa vai ter que gastar menos.

Página 50: Esse fôlego do governo brasileiro em relação à crise enfraquece os críticos à política econômica?

Leda Paulani: Eu acho que não. Porque a crítica feita nesse período se referiu ao que se deixou de ganhar. Desde o ano de 2000, o mundo engatou um crescimento por causa do fenômeno da China e o próprio crescimento da economia americana embalado nessa coisa financeira. E o Brasil ficou sistematicamente para trás. Cresceu menos que os países da América Latina e que os países emergentes. E mais: se o Brasil tem essa quantidade de capitais agora, é muito mais por conta dos fatores externos do que pelos fatores internos. É verdade que a política monetária atrai capital, porque as taxas de juros são elevadas, mas isso também mata o crescimento.

Leda Paulani é professora do Departamento de Economia da USP

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